
Essa palavra sempre causa impacto. Para uns é tristeza, para outros incerteza, para muitos medo, para mim sem dúvida é reflexão. Na verdade, nem sempre essa reflexão é bem-vinda, mais fácil é viver na paronóia delirante do dia a dia, onde vivemos dramas pelas coisas mais fúteis, e fazemos disso vida, e criamos rugas e cabelos brancos em meio a esses dramas que forjamos. Porém as coisas mudam quando chega a morte, não propiamente a nossa, pois talvez apesar de temida, essa seja mais simples do que pensamos, porque simplesmente se morre. Eu falo dos sentimentos que a antecedem, das mortes que nos cercam, de pessoas queridas, parentes e amigos, essas sim, nos fazem refletir sobre o que temos, nos fazem temer o nosso futuro tão previsível. Na minha infância a morte não foi algo tão presente, mas o temor dela sempre esteve comigo, na minha concepção era impossível resistir a perda de alguém querido. Era sempre a morte dos meus bichinhos de estimação, coisa tão comum quando se é criança, que me fazia chorar e principalmente temer. Mas nos ultimos anos é que a morte começou a se fazer presente e a me cercar, numa dessas ocasiões ainda com um animal de estimação que tinha estado toda a infancia comigo e que eu adorava, o morrer me pareceu ,pela primeira vez, uma verdadeira ópera , por ser dramática, agonizante,um espetáculo tão teatral até o desfecho final, algo, que quem está de fora, pode apenas assistir. É simplesmente o nosso destino, uma grande certeza, por isso creio que morte também é solidão, é a prova mais irrefutável de que mesmo contra nossa vontade como seres sociais estamos sós, e aí morte e solidão se misturam, a primeira como ponto culminante da segunda.Talvez daí veio a curiosidade, o meu olhar mais que acadêmico nas aulas de anatomia, nos estágios em emergências de hospitais , nas pesquisas em necrotérios, tidas também como aventuras, pois a morte estava ali e eu queria rir dela, ser fria como ela, queria ser indiferente. Mas ao final ela cerca a todos nós, me cerca agora, me força a refletir, me diz quantas tolices existem, me pergunta se muitas coisas valem a pena, põe meu egoísmo por terra, mas diz também que é preciso ver o que é importante agora. É preciso continuar o nosso dia a dia com todas as nossas tolices essenciais mas tb continuar com o que não é tolice, continuar com o que existe de belo, continuar a viver até o final, e saber que existem algumas horas, alguns minutos, alguns segundos em que somos eternos, momentos que nos tornam imortais.
1 comment:
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